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Quando a teologia chega à praça: "Tenho Sede"

Foto do escritor: Davi Marreiro
Davi Marreiro
há 11 horas
3 min de leitura

Tenho Sede: Dom Pedro Brito Guimarães


Este livro me foi apresentado por João Cláudio Moreno. Nele, encontramos as poesias de Dom Pedro Brito Guimarães, arcebispo de Palmas, cuja trajetória reúne elementos que nem sempre costumamos aproximar: a teologia, a poesia e o compromisso com a realidade concreta das pessoas.

Há algo particularmente interessante nessa aproximação. A teologia, quando ultrapassa os limites dos templos e dos tratados, encontra a vida em sua forma mais cotidiana: na mesa onde falta alimento, na comunidade que luta por dignidade, na família que convive com a escassez de água. É nesse encontro que a fé deixa de ser apenas discurso sobre o mundo e passa a interpelar a maneira como vivemos nele.


Acesso à água


A trajetória de Dom Pedro ajuda a pensar essa passagem. Antes de se tornar arcebispo de Palmas, no Tocantins, ele foi bispo de São Raimundo Nonato, no semiárido piauiense, entre 2002 e 2010. Nesse período, teve experiência com a Cáritas, instituição ligada à ação social da Igreja e à organização de iniciativas voltadas à população mais vulnerável.

A Cáritas Diocesana de São Raimundo Nonato integrou articulações de convivência com o semiárido, contexto em que a construção de cisternas se consolidou como uma importante estratégia de acesso à água. É justamente aí que a história ganha densidade. O que significa falar de esperança a quem não sabe se terá água no dia seguinte? De que vale anunciar a dignidade humana sem reconhecer as condições materiais que permitem exercê-la? E como falar de amor ao próximo sem se comprometer com as necessidades concretas desse próximo?

Essas perguntas nos conduzem a uma compreensão da fé que não se esgota na palavra pronunciada durante uma celebração. Uma fé que também precisa se traduzir em organização comunitária, mobilização social e busca de soluções para problemas históricos. Nesse sentido, a cisterna pode ser compreendida como uma resposta prática a uma necessidade fundamental e um instrumento de autonomia para as famílias do semiárido.


Sitio


Há uma imagem bíblica que torna essa reflexão ainda mais expressiva. O lema episcopal de Dom Pedro é Sitio, expressão latina que significa “Tenho sede”, associada às palavras de Jesus na cruz, no Evangelho de João (19:28). A frase carrega uma dimensão espiritual profunda, mas também nos convida a olhar para a sede que existe na praça.

A sede de Jesus, no texto evangélico, não é uma metáfora desencarnada: é a expressão de um corpo submetido ao sofrimento. Talvez resida aí uma das provocações mais fortes da tradição cristã: reconhecer o sagrado sem ignorar a materialidade da existência humana. A sede é física antes de se tornar símbolo; a fome é concreta antes de ser objeto de reflexão moral; a pobreza é vivida por pessoas antes de ser convertida em categoria sociológica ou pastoral.

A teologia chega à praça


Quando a teologia reconhece essa realidade, ela chega à praça. Deixa de falar apenas para os que já estão dentro da igreja e passa a dialogar com a sociedade, suas desigualdades e suas urgências. Não abandona a transcendência; compreende que a experiência religiosa também exige responsabilidade diante da vida concreta.

É sob essa perspectiva que proponho a leitura das poesias de Dom Pedro Brito Guimarães. Não apenas como expressão literária de um religioso, mas como oportunidade para refletir sobre as relações entre palavra, fé e compromisso social. Afinal, a poesia pode dar linguagem ao que sentimos, a teologia pode nos ajudar a interpretar o sentido da existência, mas é na vida compartilhada, e nas condições que tornam essa vida possível, que ambas são colocadas à prova.

Quando a teologia chega à praça, a pergunta já não é somente o que acreditamos. É também o que fazemos diante da sede do outro.

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