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PARA ONDE ESTAMOS OLHANDO?

  • aprenditoedu
  • há 1 dia
  • 2 min de leitura

 

“Toda contratação revela o que valorizamos. Toda demissão expõe o que descartamos. A pergunta é: para onde estamos olhando quando decidimos quem merece permanecer?”

 

Quando experiência precisa ser constantemente justificada e décadas de contribuição parecem insuficientes para garantir reconhecimento, talvez o problema não esteja no envelhecimento, mas nas lentes através das quais escolhemos observá-lo.

Ao me convidar a refletir sobre o texto "Profissionais 60+ no mundo VUCA-BANI: o resgate de lascas de alma como metáfora de resistência e renovação", o professor Jorge Campos fez mais do que propor uma leitura; lançou uma provocação! Nas linhas finais, pergunta quais "lascas da alma" precisamos resgatar para sustentar energia, propósito e clareza em meio às exigências do nosso tempo.

Confesso que a expressão "as exigências do nosso tempo" foi a que mais me inquietou. Porque talvez o problema NÃO SEJA APENAS econômico ou geracional. A questão é mais profunda: o que torna uma vida valiosa?

Se a resposta for "aquilo que ela produz", entramos num terreno perigoso. O valor humano passa a oscilar conforme o desempenho. Nessa lógica, crianças valeriam menos porque ainda não produzem?  Minha reflexão caminha na mesma direção da provocação feita pelo professor Jorge, mas acrescenta uma inquietação: ao destacar, com razão, a experiência, a resiliência e a capacidade de contribuição dos profissionais 60+, talvez valha também lembrar que o valor de uma pessoa não se esgota somente naquilo que ela é capaz de “entregar”. Afinal, dignidade não se aposenta.

Nessa hora, lembrei de uma frase de Norman Geisler que sempre me faz pensar:  "Não segue uma regra primariamente porque trará o bem, mas, sim, porque é bom fazer assim."

Será que tudo pode ser reduzido à utilidade? Honestidade, lealdade, cuidado e dignidade são apenas estratégias de reputação e ativos de mercado?

Talvez uma das "lascas da alma" que precisamos resgatar seja justamente esta: a convicção de que o valor de uma pessoa não diminui quando sua produtividade diminui.

Os profissionais 60+ têm muito a oferecer. Mas não é isso que fundamenta sua dignidade. Ela existe antes dos cargos, dos currículos e dos indicadores. E permanecerá mesmo quando os aplausos cessarem e algumas das métricas desaparecerem. Num tempo em que tudo parece caber em gráficos e planilhas, talvez o gesto mais humano, e mais revolucionário, seja lembrar que nenhum ser humano cabe inteiro em métricas. Para onde estamos olhando?

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