MORTE ALGEMAS E SILÊNCIO
- Davi Marreiro

- 7 de jul. de 2025
- 1 min de leitura
Atualizado: 8 de jul. de 2025

Pensar o filme Até a Última Gota apenas sob uma ótica talvez seja reducionista, mas é exatamente sobre injustiças e, sobretudo, suas consequências que a narrativa se debruça. Desde os primeiros minutos, a perspectiva da CO-CULPABILIDADE se insinua de forma clara. Assim como em Coringa, o enredo sugere uma atenuação da culpa individual. Foi exatamente isso que aconteceu na história de Janiyah: sob a lente da Teoria Crítica, o Estado se personificou na figura de um policial que, sozinho, foi INCAPAZ DE PROTEGER, MAS PLENAMENTE CAPAZ DE PUNIR E AMEAÇAR. Nesse cenário, o que se configurou após não foi necessariamente uma ruptura da ordem, mas um efeito colateral dela.
Além disso, não podemos subestimar o ponto culminante do enredo. O Transtorno de Estresse Pós-Traumático! Aliás, não deve ser ignorado, como se o trauma fosse insignificante, nem tão pouco absolutizado, como se anulasse completamente a dimensão ética da responsabilidade. Precisamos enxergar além da cena do “alívio das algemas”: sim, a prisão de Janiyah, para muitos, pode será lida como um consolo após uma longa sequência de tragédias.
Mas quando a prisão é o menor dos problemas, torna-se necessário romper com uma visão simplista da responsabilidade, como se ela fosse algo binário: CULPADO OU INOCENTE? A proposta do filme nos convida a compreendê-la como um processo complexo, relacional, contextual e graduado.
Para além do drama, Até a Última Gota também precisa ser compreendido também como um alerta. Afinal, a vulnerabilidade não deve ser vista como sinônimo de incapacidade de agir. Como diria Butler, precisamos articular vulnerabilidade e agência, em vez de tratá-las como polos opostos.




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