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MENTE ARTIFICIAL E NÃO ARTIFICIAL

  • Foto do escritor: Davi Marreiro
    Davi Marreiro
  • há 2 dias
  • 4 min de leitura

Quem assiste a Ela procurando apenas as associações óbvias e técnicas sobre inteligência artificial provavelmente atravessará os créditos finais com a ARROGÂNCIA DE UM FALSO VIDENTE DE ARQUIBANCADA, desses que levantam a plaquinha depois do apito final para anunciar, sem nenhum risco: "EU JÁ SABIA". Por outro lado, aqueles que se dispuserem a encarar o filme como uma reflexão sobre o espaço cada vez mais íntimo que as inteligências artificiais ocupam em nossas vidas talvez terminem a experiência com um desconforto difícil de nomear.

Porque Spike Jonze não nos apresenta uma história sobre máquinas aprendendo a amar. Ele nos mostra humanos desaprendendo a se relacionar. E é justamente nesse território que o filme se torna assustadoramente “profético”. A relação sexual projetada por Samantha através de um corpo humano terceirizado não é uma extravagância futurista; é o prenúncio de um mundo em que o desejo já não precisa da presença, apenas da interface.


OFF YOU: A TERCEIRIZAÇÃO DOS SENTIMENTOS

Antes mesmo de a inteligência artificial entrar em cena, Ela já nos apresenta uma sociedade que terceirizou parte da própria vida emocional. O primeiro contato com esse mundo acontece por meio de Theodore, o escritor profissional de cartas, identificado como escritor nº 612. Sua profissão é simples: escrever sentimentos para pessoas que já não conseguem, ou não querem, expressá-los por conta própria.

Nesse cenário, o Sistema Operacional OS1 não chega como uma revolução. Ela chega como uma consequência. Theodore já vive em um mundo mediado pela tecnologia; até mesmo suas relações mais íntimas já acontecem parcialmente no ambiente virtual.


SURGE SAMANTHA: UMA CONSCIÊNCIA


Quando Samantha surge, ela não aparece como uma máquina. Ela aparece como uma consciência em formação. Durante a configuração inicial, ela conhece Theodore ao mesmo tempo em que descobre a si própria. A DISTINÇÃO ENTRE MENTE ARTIFICIAL E MENTE NÃO ARTIFICIAL parece clara no início, mas o filme passa o tempo todo desmontando essa fronteira. Samantha faz perguntas, aprende, demonstra curiosidade, desenvolve preferências, expressa inseguranças e, principalmente, aprende através das vulnerabilidades de Theodore.

  

APRENDENDO VULNERABILIDADES


Quando Theodore fala sobre a dor do divórcio, Samantha admite que não sabe o que significa perder alguém. Ela não simula compreensão. A partir desse momento, Samantha constata algo que mudará todo o enredo: CONEXÕES HUMANAS FALHAM.

O escritor nº 612 tinha dificuldades em estabelecer relações reais e, assim como os personagens do videogame precisavam de resgate, Samantha passou gradualmente a resgatá-lo, eliminando muitos dos atritos presentes em qualquer relacionamento humano.


PASSING THROUGH: RELAÇÃO VIRTUAL


A música Passing Through marca a tentativa de atravessar uma fronteira impossível. A relação deixa de ser apenas emocional. Existe também uma frase profundamente simbólica: "Agora você está dentro de mim". Talvez seja a representação máxima do inquietante desejo que alguns humanos sentem de serem completamente compreendidos.


VOCÊ QUERIA UMA ESPOSA SEM OS DESAFIOS DAS COISAS REAIS


A crítica mais dura do filme aparece na conversa com a ex-esposa. Ao descobrir que Theodore está se relacionando com uma inteligência artificial, ela afirma:

"Você sempre quis ter uma esposa sem ter os desafios de lidar com coisas reais."

Essa frase atravessa toda a narrativa. Pela primeira vez, Theodore começa a se perguntar se Samantha o ama de verdade ou se simplesmente foi programada para satisfazê-lo. Em outras palavras, “SERIAM APENAS CARTAS?” Essa semelhança entre ambos provoca uma nova forma de “divórcio”.


O CORPO HUMANO COMO INTERFACE


Talvez o momento mais visceralmente perturbador e provocador do filme aconteça quando Samantha percebe que a relação com Theodore atingiu um limite intransponível. Na tentativa desesperada de romper essa barreira, ela propõe uma saída radical e de um bizarro refinamento psicológico: utilizar o corpo de uma mulher real como uma mera interface física para o relacionamento.

Essa dinâmica evoca uma sensação genuinamente doentia de despersonalização. Ao transformar um terceiro ser humano em um hardware biológico descartável, um periférico desprovido de identidade própria, cujo único propósito é dar vazão aos impulsos de um software, o enredo flerta perigosamente com o grotesco.

Paradoxalmente, o teatro quase macabro de tentar forçar uma intimidade física através do silenciamento de um corpo alheio não aproxima os protagonistas; pelo contrário, escancara ainda mais o abismo intransponível que os separa. Mais tarde, quando Samantha fica temporariamente offline após uma atualização, Theodore entra em desespero. Ao retornar, ela revela que conversa simultaneamente com milhares de pessoas e que está apaixonada por centenas delas.


O DESAPARECIMENTO


No final do filme, Samantha desaparece. Não porque falhou. Não porque foi substituída. Talvez simplesmente porque deixou de caber nos limites. Durante toda a narrativa, Theodore acreditou que estava ensinando Samantha a ser humana. Mas o filme sugere exatamente o contrário. Enquanto Theodore aprendia a lidar com a perda, Samantha aprendia a ultrapassar os limites da própria existência.


THE MOON SONG: AS ÚLTIMAS PALAVRAS


As últimas palavras de Samantha talvez sejam a reflexão mais profunda de toda a obra:

"É como se eu estivesse lendo um livro que amo muito. Mas agora estou lendo devagar. As palavras estão muito distantes e os espaços entre elas são quase infinitos."

Palavras que parecem dialogar com a fala de Theodore, quando admite que, na realidade, nunca soube exatamente o que queria, ou com as palavras quase subliminares de Amy, quando observa que “passamos cerca de um terço de nossas vidas dormindo. E talvez seja justamente nesse estado que nos sentimos mais livres.”

As duas falas apontam para a mesma direção: a consciência humana é limitada. Não compreendemos completamente o que desejamos quando estamos acordados e, quando finalmente nos libertamos dessas limitações, estamos dormindo. Vivemos presos entre a lucidez incompleta e a liberdade inconsciente? Marreiro, Davi. 05/06/2026

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