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O que nos torna humanos?

  • Foto do escritor: Davi Marreiro
    Davi Marreiro
  • há 3 dias
  • 2 min de leitura

  Ficar sem fôlego debaixo d’água? Apagar e reescrever? Inventar mundos que nunca existiram e, ainda assim, sofrer por eles como se fossem reais?

É tentador procurar uma resposta. Mas talvez isso apenas nos diferencie.

 

A linguagem. A memória. A imaginação. A consciência. Porque, quando retiramos essas grandes palavras, sobram os instintos, as vulnerabilidades, aquilo que temos em comum.

Talvez a lógica seja simbólica.

 

Afinal, existem possibilidades que ainda não podem ser vistas. Para existir como árvore, uma semente precisa romper a própria proteção, atravessar a terra e encontrar a luz. Germinar é, de certa maneira, deixar de caber naquilo que se era.

  Talvez conosco aconteça algo parecido.

 

Tornamo-nos alguém quando rompemos algumas das nossas próprias cascas: as certezas herdadas, os nomes que nos deram, as ideias que acreditávamos serem nossas. Somos também aquilo que lemos, aquilo que perdemos, aquilo que amamos, aquilo que nos obrigou a mudar de ideia.

E talvez seja por isso que ser humano seja também ser intérprete e  interpretado.

 

Conhecemos alguém e, quase imediatamente, criamos etiquetas: inteligente, tímido, forte, difícil, sensível, estranho. Como se uma palavra pudesse dar conta de uma pessoa inteira.

Mas quem somos nós antes da etiqueta? E quem continuaremos sendo depois que ela deixar de servir?

  Talvez compreender nunca se complete.

 

Hoje, chamamos de humano aquilo que ainda parece nos distinguir das máquinas e dos bichos. Amanhã, talvez sejam outras capacidades, ainda inimagináveis, incompletas. Daqui a vinte e cinco anos, talvez leiam nossas certezas sobre a humanidade com o mesmo estranhamento com que hoje lemos as antigas definições do que significava ser humano.

 

O que nos torna humanos?

 

Talvez não seja aquilo que somos capazes de definir.

  Talvez seja justamente aquilo que nos impõe, de tempos em tempos, a apagar a resposta, romper a casca e escrever outra.

Porque ser talvez não seja chegar.

Talvez seja tornar-se.


Davi Marreiro

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